O guardião

Esta é a história de dois amigos e do deserto que atravessaram em busca da Caverna da Verdade. Temperaturas altas de dia, noites geladas. Quilómetros em deserto de pedra. Foram dias e dias de deserto em busca da Caverna sem saber sequer se a sua existência era real. Movia-os a vontade de encontrar aquilo que sempre foi procurado e raras vezes encontrado- a verdade.

Um dia, já exaustos, roupa sem cor e barbas compactas, encontraram uma caverna. Poucas duvidas tiveram de que se tratava da Caverna que procuravam. Poucas duvidas tiveram que iam aceder àquilo que a humanidade sempre desejou.  Entraram a correr.

Foram travados por um velho homem. Indignados, os dois amigos, apelaram aos quilómetros feitos no deserto, ao direito que consideravam ter conquistado de entrar na Caverna e de ter acesso à verdade.

O homem sorriu concordando e dizendo:

-“Sou guardião da Caverna da Verdade há muitos anos e nunca impedi quem cá chegou de entrar. Mas cabe-me perguntar até onde querem ir e avisar que depois da resposta não podem voltar atras. Uma vez dentro da caverna terão de ir até ao fim. Já decidiram a que profundidade querem ir ?”

Os amigos olham um para o outro, afastam-se para decidir. Conversam durante algum tempo. Discutem. Acalmam-se e avançam.

-“Já decidiram?” pergunta o velho homem sorridente.
-“Já sim” responde um deles, “queremos entrar apenas só para podermos dizer que cá estivemos.”

Petra

Muros que falam

De cada vez que parava naquele sinal vermelho, virado para o muro branco do IPL, vinha-me à cabeça a mesma frase:

“musicamos com palavras os diálogos da vida/ vamos indo sem rumo apesar da bússola”

Era uma frase bizarra, longa demais para ser evocada sem nenhuma musicalidade. Vinha sem ritmo e nunca consegui cantá-la. Não era música. Não era minha. E não sabia porque é que cada vez que parava naquele sinal ela me vinha à cabeça. Era um fenómeno.

Uma noite, com uma amiga de longa data no carro e paradas no sinal, comentei o fenómeno. Entusiasmada ela responde que aquela frase esteve durante anos escrita no muro. Que sempre que passava ali ainda via o muro escrito e grafitado mas que nunca se lembraria do que lá estava escrito caso eu não o dissesse.

Aquele muro nunca se calou. Tinha dois discursos. Um para mim, outro para ela.

Aquele mesmo muro, hoje diz mais para a esquerda, greve-geral.

 

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Um pré-compromisso

Há situações que nos levam a sítios que julgávamos não estar ainda preparados para ir.

Hoje dei por mim numa dessas situações que me conduziu a este post. Um pré-compromisso. 

Em 2005 decidi voltar a estudar. Ou iria tirar direito porque tenho em mim sangue de justiceira vindo de um avô jurista ou iria tirar audiovisual e multimedia, curso que não existia nos meus tempos de estudante e que um acaso fez com que fosse a minha profissão.

A minha escolha foi fazer um percurso com menos ruptura e reforçar os meus conhecimentos naquela que era na altura a minha área profissional. A licenciatura que tirei foi paga pela minha entidade patronal, com um contrato assinado através do qual eu me comprometia a acabar o curso sem chumbar a nenhuma cadeira. O contrato foi cumprido. Um ano após o outro. Muita água a passar debaixo da ponte.

Descansei e fui fazer mestrado, desta vez pago por mim mas com um contrato mental semelhante aquele que assinei um dia. Fazer todas as cadeiras, não adiar, trabalhar, estudar. E assim fiz. No primeiro semestre dispensei todos os exames. No segundo semestre tudo corria igual menos a duas cadeiras. As aulas eram em dias que faltei várias vezes. Faltei para ir a galas onde trabalhos nos quais participei estavam nomeados para prémios de televisão. Foram várias as nomeações, desde o Festival de Monte Carlo à TV Sete Dias e foram vários os prémios, UNESCO e Gazeta mais uma menção honrosa do Grupo Impresa. Perdi as aulas porque ganhei outras coisas. Alguns dias até as perdi apenas por ter ganho uma gripe.

No final do semestre estava tudo feito menos duas cadeiras. Um dos exames fiz, e fiz até com uma certa raiva por considerar injusto que o meu trabalho não tivesse sido aceite pelo atraso. Passei com 15 a metodologias de investigação aplicada aos media. Devo-o ao mesmo avô que também foi director do INE.

O outro exame adiei, adiei e adiei. Adiei tanto que o deixei para Setembro e vou ter de conviver com isso o melhor que conseguir. Adiei tanto como até aqui, neste mesmo post, tenho estado a adiar o pré-compromisso ao qual me propus no inicio do post empurrada pela tal situação que nem vou mencionar.

O pré-compromisso é falar publicamente sobre os temas da minha tese de mestrado.

São dois os temas e não são fáceis de nomear porque “não existem”. Surgem da constatação de que continuamos a aprender com base na realidade que existia na época em que alguém pensou a realidade cunhando os termos. Eu vou continuar partindo da realidade que me cerca. Solidariedade de Durkheim e as esferas de Habermas.

Hoje esforçamo-nos para encaixar a realidade nos conceitos de ontem.

Habermas definiu esfera intima, esfera privada e esfera publica, mas será que existe uma nova esfera ? aquela que tantas polémicas tem gerado por não encaixar na perfeição em nenhuma das esferas definidas anteriormente. É a esfera que parece publica mas cada um considera privada ou que parece privada e cada um considera publica. É a rede onde “vivemos” hoje. E a solidariedade de hoje ? que se pode dizer sobre ela ? alguém concebe solidariedade além das SPSS ?

Solidariedade e esferas são os meus temas, realacionados directamente com cultura participativa em rede, relacionado com pessoas e construção. Utilização da rede para o bem estar de uma comunidade.

Pode ser utopia, pode não ser. Eu sempre gostei muito da Escola de Chicago, gostei mais até do que da Escola de Frankfurt.

O SMS

Imaginemos Passos Coelho a confidencializar à comunicação social que recebeu um sms da Manuela Moura Guedes e que, por isso, deixou cair um secretário de Estado.
Cenário difícil de imaginar ? pois…

Agora imaginemos MMG a confidencializar à CS que enviou um sms a PPC sobre Bairrão e que fez cair um secretário de Estado.
Mais fácil de imaginar ? pois…

Agora imaginemos tudo o resto que falta na história, todos os sms; todos os motivos; argumentos; acontecimentos não confidencializados porque existem
à margem da MMG.
Fácil imaginar ? ora, pois…

Agora vejamos este filme

Cenário fácil de entender ? pois…

I rest my case

Pessoas Estranhas


A ver a noticia sobre a praia de algés cheia de pessoas conscientes da falta de condições, lembrei-me de uma noticia com muitos anos sobre a poluição na linha (na altura toda a linha estava contaminada).

Um jornalista perguntava a uma mãe se, perante as analises à agua que demonstravam uma percentagem alta de resíduos fecais, não a incomodava que o seu filho bebé estivesse na água A resposta da mãe, depois do jornalista explicar o significado de fecais, foi: “Olhe, desculpe lá mas não vejo nada a boiar”

Falsa Tradição

Ou as coisas que me fazem dar uma boa gargalhada:





No site da Al Jazeera, entre fotos e noticias de uma revolução no mundo árabe, pode ser encontrada esta imagem. Para alguém mais distraído ela pode fazer todo o sentido e transmite imediatamente uma ideia de tradição, antiguidade e, logo, credibilidade. Mas, para alguém mais atento a primeira impressão que a imagem cria é a de estranheza.





O que faz uma televisão árabe num anuncio americano ? O que leva uma criança americana gostar de um canal de televisão de noticias árabes ? E, mais ainda, “não tenho ideia de ouvir falar da Al Jazeera assim há tantos anos”.

Se as respostas às primeiras perguntas são complicadas, a resposta à última não o é – basta usar o Google e pesquisar historia da Al Jazeera. Fazendo-o, é isto que se encontra:

“Al Jazeera, the 24-hour, Arabic-language satellite television news network viewable throughout the Middle East and most of the world, went on the air on Nov. 1, 1996. Al Jazeera’s English-language network went on the air in November 2006. The network is based in Doha, Qatar, the small Arab, peninsular nation jutting into the Persian Gulf from Saudi Arabia’s eastern midsection. “Al Jazeera” is Arabic for “the peninsula.” The network is heavily funded by Qatar’s royal family. Boycotts and pressure from other Arab regimes, most notably Saudi Arabia, keeps advertisers away and prevents the station from becoming self-sufficient.”

Há duas coisas muito interessantes nisto:

1ª – A manipulação de símbolos do ocidente para credibilizar uma marca árabe.

2ª – A facilidade que representa a invenção de uma tradição.





“Fight them with their own arms”

Nota: Finalmente algo me fez voltar aqui :) para aqueles que aqui vêm regularmente as minhas desculpas e obrigada.

“Nunca discutas com um idiota. Ele arrasta-te até ao nível dele, e depois vence-te em experiência”

Quando queres festejar organiza a tua festa… não estragues a festa do teu vizinho.