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Coisas

Há uns anos, por causa das “24 horas em directo e em português”, trabalhava em horários estranhos. Dois desses horários eram das 00:00 às 06:00 e das 06:00 às 12:00.
Nessa época verifiquei uma coisa:
Quando saía de casa às 06:00 para ir trabalhar, sentia-me segura dentro do elevador, no prédio e tinha algum receio quando passava a porta do prédio até entrar no carro.
Quando chegava a casa às 06:00 da manhã, sentia-me segura no carro, na rua e tinha algum receio quando passava a porta do prédio, no elevador até entrar em casa.
A mesma coisa, o mesmo sitio, os mesmos factos, outras emoções…

Foi a emoção de voltar a ouvir o Governo Sombra na TSF em vez de o ver na TV que me fez recordar isto.

Screen Shot 2013-03-23 at 2.07.00 AM

Estúpido

“eu devo ter feito alguma coisa muito grave” afirmava ela enquanto olhava para os escombros.

“se o mundo fosse assim nenhuma criança morria” pensava eu.

E, sem nunca lho ter dito, dedico dias a este pensamento. 

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não te sentes um traidor?

Abreviando a história, nos EUA a Arte Pop tinha encanto, fervilhava e por cá a tradição estava enraizada. Da mistura da tradição com a revolução vinda do ocidente saiu muita coisa. Muitas obras e pintores. E saiu José Vaz Vieira, que com uma bolsa da Gulbenkian foi estudar nos EUA. Por lá ficou e não voltou.

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auto-retrato a acrilico sobre tela,anos 70

Morreu lá em 2009.

Algumas obras dele que por cá ficaram e, porque ele nunca voltou nem nunca pintou como actividade principal lá, caíram no esquecimento.

Lembro-me de ser jovem e assistir a uma discussão entre ele, José Vaz Vieira, e um escultor. Bêbados conversavam assim:

-“não te sentes um traidor? Não sentes que traíste todos aqueles que te compraram quadros quando pintavas?”

-“não. não sinto. os quadros continuam a ser deles.”

-“mas eles apostaram em ti. investiram.”

-“e mantêm aquilo que compraram.”

e rapidamente a conversa mudou para uma tela de um jovem pintor que estava encostada a um móvel.

Não sei quantos quadros existem, conheço muitos, conheço as paredes onde estão e tive a sorte de um deles vir parar à minha parede.

Veio cá parar quando depois de uma reestruturação de uma empresa, alguém que o tinha no seu gabinete fez questão que ele fosse da minha mãe, que sempre que via o quadro gabava o bom gosto da escolha, a ficar com ele. Ligou a avisar:

-“Vou pedir para entregarem o quadro a sua casa” e levaram-no. Isto na mesma altura em que eu começava a fingir que era crescida e que tinha casa. Foi assim que o quadro do meu tio veio aqui parar.

Acho que quem investiu ficou contente com o fim deste quadro. Foi uma homenagem em vida.

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Por mim, gosto da mistura da pop arte com o azulejo português. E da história que ele contém.

Às vezes podemos morrer

Às vezes podemos morrer. Às vezes morremos e outras discutimos a morte alheia.

Todos os momentos são importantes. Quando pensamos que podemos morrer perguntamo-nos coisas tão simples como: “tenho dançado o suficiente?”; “fiz alguma diferença?”; “todos aqueles de quem gosto sabem que gosto deles?”; “há alguma coisa, em alguma gaveta, que (nem morta) eu quero que alguém saiba?”. Há outras duvidas mais profundas mas no fim as que contam são estas. 

Nas vezes em que morremos deixamos aos outras as perguntas. “Porquê?”; “Terá morrido em paz em todas as áreas da sua vida?”; “Podia ter feito mais? dito mais? ouvido melhor?” Também aqui há outras duvidas mais profundas mas no fim são estas as que contam.

Nas vezes em que discutimos a morte alheia a coisa complica-se muito mais. Já não existe a simplicidade dos dois momentos anteriores. As respostas tomam a vez das perguntas e poucas vezes respondem com a simplicidade que o momento representa.

 E, como ameri…

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E, como americana que é, conta as histórias das canções. Ontem contou uma história sobre a história de uma canção. Uma história “de amor” que guardou durante 7 anos e que no dia em que a decidiu contar em concerto, o protagonista tinha ido assistir. Rematou dizendo: “Life is wild”. Concordo.

As coisas não vão bem por cá.

Faz tempo que todos o achamos. Faz tempo que alguns o dizem.

As por cá vão tão mal que uma declaração assim:

noticia DN: 23 abril

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faz um título assim:

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Haverá necessidade disto ? as vendas justificam tudo ?

-Amo o meu país-

O guardião

Esta é a história de dois amigos e do deserto que atravessaram em busca da Caverna da Verdade. Temperaturas altas de dia, noites geladas. Quilómetros em deserto de pedra. Foram dias e dias de deserto em busca da Caverna sem saber sequer se a sua existência era real. Movia-os a vontade de encontrar aquilo que sempre foi procurado e raras vezes encontrado- a verdade.

Um dia, já exaustos, roupa sem cor e barbas compactas, encontraram uma caverna. Poucas duvidas tiveram de que se tratava da Caverna que procuravam. Poucas duvidas tiveram que iam aceder àquilo que a humanidade sempre desejou.  Entraram a correr.

Foram travados por um velho homem. Indignados, os dois amigos, apelaram aos quilómetros feitos no deserto, ao direito que consideravam ter conquistado de entrar na Caverna e de ter acesso à verdade.

O homem sorriu concordando e dizendo:

-“Sou guardião da Caverna da Verdade há muitos anos e nunca impedi quem cá chegou de entrar. Mas cabe-me perguntar até onde querem ir e avisar que depois da resposta não podem voltar atras. Uma vez dentro da caverna terão de ir até ao fim. Já decidiram a que profundidade querem ir ?”

Os amigos olham um para o outro, afastam-se para decidir. Conversam durante algum tempo. Discutem. Acalmam-se e avançam.

-“Já decidiram?” pergunta o velho homem sorridente.
-“Já sim” responde um deles, “queremos entrar apenas só para podermos dizer que cá estivemos.”

Petra

Muros que falam

De cada vez que parava naquele sinal vermelho, virado para o muro branco do IPL, vinha-me à cabeça a mesma frase:

“musicamos com palavras os diálogos da vida/ vamos indo sem rumo apesar da bússola”

Era uma frase bizarra, longa demais para ser evocada sem nenhuma musicalidade. Vinha sem ritmo e nunca consegui cantá-la. Não era música. Não era minha. E não sabia porque é que cada vez que parava naquele sinal ela me vinha à cabeça. Era um fenómeno.

Uma noite, com uma amiga de longa data no carro e paradas no sinal, comentei o fenómeno. Entusiasmada ela responde que aquela frase esteve durante anos escrita no muro. Que sempre que passava ali ainda via o muro escrito e grafitado mas que nunca se lembraria do que lá estava escrito caso eu não o dissesse.

Aquele muro nunca se calou. Tinha dois discursos. Um para mim, outro para ela.

Aquele mesmo muro, hoje diz mais para a esquerda, greve-geral.

 

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Um pré-compromisso

Há situações que nos levam a sítios que julgávamos não estar ainda preparados para ir.

Hoje dei por mim numa dessas situações que me conduziu a este post. Um pré-compromisso. 

Em 2005 decidi voltar a estudar. Ou iria tirar direito porque tenho em mim sangue de justiceira vindo de um avô jurista ou iria tirar audiovisual e multimedia, curso que não existia nos meus tempos de estudante e que um acaso fez com que fosse a minha profissão.

A minha escolha foi fazer um percurso com menos ruptura e reforçar os meus conhecimentos naquela que era na altura a minha área profissional. A licenciatura que tirei foi paga pela minha entidade patronal, com um contrato assinado através do qual eu me comprometia a acabar o curso sem chumbar a nenhuma cadeira. O contrato foi cumprido. Um ano após o outro. Muita água a passar debaixo da ponte.

Descansei e fui fazer mestrado, desta vez pago por mim mas com um contrato mental semelhante aquele que assinei um dia. Fazer todas as cadeiras, não adiar, trabalhar, estudar. E assim fiz. No primeiro semestre dispensei todos os exames. No segundo semestre tudo corria igual menos a duas cadeiras. As aulas eram em dias que faltei várias vezes. Faltei para ir a galas onde trabalhos nos quais participei estavam nomeados para prémios de televisão. Foram várias as nomeações, desde o Festival de Monte Carlo à TV Sete Dias e foram vários os prémios, UNESCO e Gazeta mais uma menção honrosa do Grupo Impresa. Perdi as aulas porque ganhei outras coisas. Alguns dias até as perdi apenas por ter ganho uma gripe.

No final do semestre estava tudo feito menos duas cadeiras. Um dos exames fiz, e fiz até com uma certa raiva por considerar injusto que o meu trabalho não tivesse sido aceite pelo atraso. Passei com 15 a metodologias de investigação aplicada aos media. Devo-o ao mesmo avô que também foi director do INE.

O outro exame adiei, adiei e adiei. Adiei tanto que o deixei para Setembro e vou ter de conviver com isso o melhor que conseguir. Adiei tanto como até aqui, neste mesmo post, tenho estado a adiar o pré-compromisso ao qual me propus no inicio do post empurrada pela tal situação que nem vou mencionar.

O pré-compromisso é falar publicamente sobre os temas da minha tese de mestrado.

São dois os temas e não são fáceis de nomear porque “não existem”. Surgem da constatação de que continuamos a aprender com base na realidade que existia na época em que alguém pensou a realidade cunhando os termos. Eu vou continuar partindo da realidade que me cerca. Solidariedade de Durkheim e as esferas de Habermas.

Hoje esforçamo-nos para encaixar a realidade nos conceitos de ontem.

Habermas definiu esfera intima, esfera privada e esfera publica, mas será que existe uma nova esfera ? aquela que tantas polémicas tem gerado por não encaixar na perfeição em nenhuma das esferas definidas anteriormente. É a esfera que parece publica mas cada um considera privada ou que parece privada e cada um considera publica. É a rede onde “vivemos” hoje. E a solidariedade de hoje ? que se pode dizer sobre ela ? alguém concebe solidariedade além das SPSS ?

Solidariedade e esferas são os meus temas, realacionados directamente com cultura participativa em rede, relacionado com pessoas e construção. Utilização da rede para o bem estar de uma comunidade.

Pode ser utopia, pode não ser. Eu sempre gostei muito da Escola de Chicago, gostei mais até do que da Escola de Frankfurt.