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Muros que falam

De cada vez que parava naquele sinal vermelho, virado para o muro branco do IPL, vinha-me à cabeça a mesma frase:

“musicamos com palavras os diálogos da vida/ vamos indo sem rumo apesar da bússola”

Era uma frase bizarra, longa demais para ser evocada sem nenhuma musicalidade. Vinha sem ritmo e nunca consegui cantá-la. Não era música. Não era minha. E não sabia porque é que cada vez que parava naquele sinal ela me vinha à cabeça. Era um fenómeno.

Uma noite, com uma amiga de longa data no carro e paradas no sinal, comentei o fenómeno. Entusiasmada ela responde que aquela frase esteve durante anos escrita no muro. Que sempre que passava ali ainda via o muro escrito e grafitado mas que nunca se lembraria do que lá estava escrito caso eu não o dissesse.

Aquele muro nunca se calou. Tinha dois discursos. Um para mim, outro para ela.

Aquele mesmo muro, hoje diz mais para a esquerda, greve-geral.

 

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A Boa Fé do Estado Português

ou como correr com a concorrência fingindo que se a fomenta

A 26 de Fevereiro de 2008 foi aberto concurso público para atribuições de 2 licenças de Televisão Digital Terrestre (TDT) – uma para serviços gratuitos de televisão (FTA) e outra para serviços pagos de televisão (PayTV).

Visava este concurso que Portugal cumprisse a directiva europeia de fazer a transição dos serviços de televisão do sistema analógico para o sistema digital de forma a libertar espectro radioelectrico (dividendo digital).

Concorreram à licença PayTV a Airplus Television Portugal, S.A. e PT Comunicações, S.A.

A PT ganhou o concurso e a Airplus avançou para tribunal. Aqui.

Dia 15 de Julho de 2010 foi anunciado no site da ANACOM a decisão de “revogar o acto de atribuição dos direitos de utilização de frequências associados aos Multiplexers B a F” e a devolução de um cheque caução de 2,5 M€ à PT. (Só o Jornal de Negócios avançou com esta noticia).

Os argumentos da PT para o pedido de revogação sem perda de caução estão aqui e resumem-se a uma alteração nas condições do mercado.

“A PTC evidencia que, desde a data em que lhe foram atribuídos os direitos de utilização de frequências associados aos Muxes B a F (Outubro de 2008), ocorreram diversos desenvolvimentos no mercado da televisão por subscrição que comprometem decisivamente as possibilidades de sucesso do ”projecto Pay TV”, pondo seriamente em causa a respectiva viabilidade comercial.”

Os argumentos da ANACOM estão aqui e resumem-se à aceitação dos argumentos da PT e de que o motivo de lançamento do concurso TDT em Portugal está actualmente cumprido: fomentar a concorrência beneficiando o povo.

“Recorde-se que os referidos direitos de utilização de frequências se destinavam à operação de Pay TV, tendo sido atribuídos no âmbito do processo de introdução da Televisão Digital Terrestre (TDT) com o objectivo de promover a concorrência, em particular no mercado da televisão por subscrição, proporcionando ao utilizador final uma mais ampla e diversificada oferta de redes e serviços.”

Ambos os argumentos são válidos e ambos são verdadeiros. No entanto olhando para este quadro pode ter-se a ideia que quem mudou o mercado foi a própria PT e que a Airplus não se tornou num novo player do sector.

Evolução das quotas de assinantes de TV por subscrição

Evolução das quotas de assinantes de TV por subscrição

Desta forma ambos os argumentos perdem validade:

A PT mudou o mercado. Depois do spin-off  da PTM e sem quota no segmento televisão por subscrição a PT garantiu uma plataforma de distribuição (TDT) enquanto investia noutras (IPTV, DTH e FTTH). O ter conseguido quota através dessas outras plataformas e, por isso,  considerar que hoje já não se justifica investir na rede TDT é da sua inteira responsabilidade. A devolução do cheque caução torna-se num gesto patético de paternalismo empresarial.

O argumento do fomento à concorrência por parte da ANACOM também perde validade quando se pensa nas coisas no sentido de todo este processo ter visado sempre o bloqueio à entrada de um novo player no mercado.

Vamos vendo e questionando

Continuação de Boa Sorte nos negócios para a PT

AMO O MEU PAÍS

(e conversas sobre iniciativa privada e livre concorrência)

A crise (dis)funcional II

A polémica entre bloguers e jornalistas está em “cima da mesa” ou no monitor do computador. Do excesso de zelo que levou à proibição de acesso ao recinto onde se realizavam as directas do PSD passou-se ao excesso de protagonismo que levou a uma reunião do líder do PSD com bloguers “à porta fechada” no Congresso do mesmo partido.

Não consigo olhar para esta história sem me recordar do Duchamp, e do seu Urinol.

Quando Duchamp apresenta o Urinol a concurso a academia, elite artistica da epoca entra em choque e tenta evitar a todo o custo tal humilhação à instituição Arte. A dinâmica gerada pela ruptura causa um nível de entropia ao sistema que o coloca em risco. Para sobreviver, a instituição arte que sofria a vulnerabilidade da sua crise funcional pós máquina fotografica, teve de aceitar o Urinol e teve de o colocar dentro de um museu. Duchamp subverte a instituição arte.

Mas Duchamp tinha como pretensão trazer a arte para fora dos museus. Trazer a arte para a vida. A sua grande critica à instituição Arte era o afastamento entre esta e a população no geral. O afastamento da vida real. Ele pretendia tirar a arte dos museus e traze-la para a vida quotidiana. Duchamp viu a sua pretensão subvertida pelo sistema. Depois de conseguir ser aceite pela academia, representante da instituição que ele tanto questionava Duchamp viu o seu Urinol entrar no museu. No fim não foi a arte a sair do museu para a vida quotidiana como Duchamp pretendia. No fim foi a vida quotidiana que entrou nos museus sob a forma de arte.

A contra-cultura tornou-se cultura. Foi absorvida pela instituição que ameaçou. Tornou-se um ícone de tudo aquilo que abominou.

Relativizo a escala olhando antes a dinâmica das instituições.As suas estratégias de sobrevivência. Os seus movimentos de cultura e contra-cultura. Desta forma o paralelismo torna-se evidente.

A transposição desta realidade sistémica para a cultura jornalística e a contra-cultura blogue aponta para o fim da blogosfera enquanto contra-cultura. A cultura institucional absorverá a contra-cultura que a ameaça. No fim ambos mudam. Ambos ganham. Ambos perdem.

Há mortos nas redes sociais

A ideia de que existem mortos nas redes sociais é ainda um pouco estranha à maioria. Mas existem. Vários.

Devido à sensibilidade que envolve o tema neste post não serão colocados links ou nomes. Acreditar ou não no que aqui está escrito será decisão de quem ler.

O primeiro caso com que me deparei foi há 3/4 anos: Recebi um telefonema de uma amiga que me dizia que X, amigo comum, tinha morrido. Por estranha, ou não, curiosidade mórbida abri a rede social que me ligava a ele. Fui ver o perfil de X. Nessa página li o seu ultimo status: “Lonely”.

X era divertido e tinha um vasto clube de fãs. Tão vasto que a muitas nunca chegou a noticia da sua morte e, por esse motivo, continuaram a colocar todo o tipo de piadas de ocasião no perfil de X. Pouco tempo depois, por não estar preparada para aceitar com leveza esta realidade estranha retirei X da lista de amigos. Tentei agora voltar a ver o seu perfil e não o encontrei.

O segundo caso foi pouco depois. Y com quem me cruzara há uns anos e com quem me continuara a cruzar de tempos a tempos não tinha o estatuto de amigo. Era alguém que andava pelos mesmos caminhos por onde eu andava e com quem era simpático cruzar-me. Um telefonema também me avisou que Y tinha morrido e tal como fiz com X, abri o seu perfil. Para descobrir que Y já não estava na minha rede. Y tinha visitado o meu perfil nas 2 semanas anteriores à sua morte (a rede de que falo informava quem visitava o nosso perfil e permitir que essa informação fosse dada era opcional). E Y tinha decidido retirar-me da sua rede.

Li na minha rede, escrito por amigos comuns, o sentimento que deixou esta morte. Foi a primeira vez que vi uma homenagem, espécie de velório, online.

O terceiro caso foi pouco depois, mas já na nova rede social da moda para a qual havíamos migrado. É o caso Z. E é do caso Z que trata este post. Com Z não houve telefonema. Foi na rede que soube da noticia, assim como a maioria das pessoas que tínhamos em comum. Foi na rede que foi colocada a informação sobre a igreja do velório, a hora da missa e o cemitério. Foi no perfil de Z que foram colocadas as homenagens. Os pensamentos. As imagens. Até uma discussão sobre o conceito de amizade foi desenvolvida ali. Durante dias sempre que alguém da minha rede escrevia ali, eu lia na minha homepage. Um ano passou e deixei de ler. Z manteve-se na minha rede, na minha memória mas não no meu “mural”. Mas hoje, ao entrar na “nova” rede deparei-me no cantinho do lado direito com uma mensagem que dizia “Catch up on Facebook. Send her a message”.

Cliquei no perfil. Estarrecida li um rol de posts dedicados a Z e assinados “Mãe”.

O perfil “Mãe” tem nome mas não tem foto. Foi criado recentemente por uma mãe sexagenária que quer estar perto de Z.

Cronologia para memória futura

E porque tudo tem de ter um principio parto daqui

Em Outubro de 2008 é “publicada no “Diário da República” a Portaria n.º 1239/2008, de 31 de Outubro, que procede à abertura do concurso público para a atribuição de uma licença para o exercício da actividade de televisão

e então sucedem -se os seguintes factos:

13 de Novembro de 2008

Zon confirma – Emídio Rangel contratado como consultor externo para 5º canal : Agência Financeira

Emídio Rangel prepara candidatura da Zon ao quinto canal de televisão : Jornal Público

21 de Janeiro de 2009

Zon chumba Rangel e cria 5.º canal para a crise : Diário de Noticias

Zon: Garante que consultor é para manter na empresa – Rangel fora do 5.º canal : Correio da Manhã

22 de janeiro de 2009

Empresa portuguesa na corrida- ZON vai ter concorrência no concurso ao 5º canal : Jornal de Negócios

Empresa de David Borges e de filha de Emídio Rangel apresenta candidatura ao quinto canal : Jornal Público

23 de Janeiro de 2009

A ERC realizou hoje o acto público de abertura das duas propostas ao concurso do “5.º Canal” : (o artigo não datado por erro da ERC aqui)

Telecinco considera que proposta da Zon poderá ser excluída do concurso : Jornal Público

Preparar uma candidatura a um canal de televisão tem custos altíssimos, para se ter uma ideia basta espreitar o caderno de encargos inerente ao concurso (aqui).

23 de Fevereiro de 2009

ERC chumba as duas candidaturas ao quinto canal : Meios&publicidade

25 de Fevereiro de 2009

Quinto Canal arrisca ficar parado durante anos : Diário Económico

25 de Março de 2009

Telecinco processa 3 membros da ERC : diario.iol.pt

29 Abril de 2009

Governo ainda não decidiu se invoca interesse público do 5º canal : Jornal de Negócios

25 de Junho de 2009

Moniz defende venda da Media Capital à PT : DN TV&Media

3 de Julho de 2009

5.º canal: Zon recorre de chumbo à sua candidatura: diario.iol.pt

3 de Agosto de 2009

Ongoing quer mercado da TV : Correio da Manhã

Eleições; fim do jornal de 6ª; de Abril até hoje o governo continua sem saber se invoca interesse público; a PRISA não sabe se vende, a Ongoing não sabe se compra; a MC não sabe se é comprada; a ZON recorre em Julho duma decisão de Fevereiro depois da falha de negocio entre PT/ MC; enfim…

Amo o meu país

e amo olhar para (alguma/muita) informação ordenada

Visão sistémica ou teoria da conspiração?

Esta semana é esta entrevista que sai da minha espiral do silêncio.

Uma entrevista feita na SIC Notícias onde Adão da Fonseca tem oportunidade de avisar o Governo que caso não salve o BPP terá prejuízos maiores.

“Adão da Fonseca defende que o salvamento do BPP será mais barato para os contribuintes do que a falência do banco.”

in Económico
30/04/09 09:20

O que me tem espantado é perceber que a visão sistémica dos administradores da banca é respeitada. E, num pais onde qualquer um que tenha a ideia de associar causa a efeito passa a ser aquele que tece  “teorias da conspiração” ou aquele que tem a “mania da perseguição”, esse respeito à visão da banca é de louvar.

Ainda bem que existem bocas através das quais a teoria de Ludwig von Bertalanffy ganha novo fôlego.

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Adoro o paradoxo

Esta manhã li o seguinte comentário no Twitter

twitter1

Fui ler no Expresso um Curto memorando para uma próxima entrevista feito por Ricardo Costa para pseudo-utilização de Sócrates.

Ocorre-me apenas pensar que Ricardo Costa não dá uma opinião isenta… Quando Sócrates cair é António Costa que está posicionado para Secretário-Geral do PS.

E como Portugal não passa duma ditadura bi-partidária (adoro o paradoxo) António Costa chegará certamente a PM.

A Câncio é espancada pela classe jornalística enquanto a Costa todos fazem vénia !

Estamos todos inocentes!