não te sentes um traidor?

Abreviando a história, nos EUA a Arte Pop tinha encanto, fervilhava e por cá a tradição estava enraizada. Da mistura da tradição com a revolução vinda do ocidente saiu muita coisa. Muitas obras e pintores. E saiu José Vaz Vieira, que com uma bolsa da Gulbenkian foi estudar nos EUA. Por lá ficou e não voltou.

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auto-retrato a acrilico sobre tela,anos 70

Morreu lá em 2009.

Algumas obras dele que por cá ficaram e, porque ele nunca voltou nem nunca pintou como actividade principal lá, caíram no esquecimento.

Lembro-me de ser jovem e assistir a uma discussão entre ele, José Vaz Vieira, e um escultor. Bêbados conversavam assim:

-“não te sentes um traidor? Não sentes que traíste todos aqueles que te compraram quadros quando pintavas?”

-“não. não sinto. os quadros continuam a ser deles.”

-“mas eles apostaram em ti. investiram.”

-“e mantêm aquilo que compraram.”

e rapidamente a conversa mudou para uma tela de um jovem pintor que estava encostada a um móvel.

Não sei quantos quadros existem, conheço muitos, conheço as paredes onde estão e tive a sorte de um deles vir parar à minha parede.

Veio cá parar quando depois de uma reestruturação de uma empresa, alguém que o tinha no seu gabinete fez questão que ele fosse da minha mãe, que sempre que via o quadro gabava o bom gosto da escolha, a ficar com ele. Ligou a avisar:

-“Vou pedir para entregarem o quadro a sua casa” e levaram-no. Isto na mesma altura em que eu começava a fingir que era crescida e que tinha casa. Foi assim que o quadro do meu tio veio aqui parar.

Acho que quem investiu ficou contente com o fim deste quadro. Foi uma homenagem em vida.

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Por mim, gosto da mistura da pop arte com o azulejo português. E da história que ele contém.

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7 responses to “não te sentes um traidor?”

  1. João says :

    Viva prima, que bom teres colocado o teu Tio online, tenho tão boas recordações vossas e dos quadros do teu Tio na parede do corredor anos a fio, e do autoretrato que me inspirou no inicio da minha carreira, que estava a comentar com os meus filhos ao jantar e descrevia o autoretrato. O mais velho foi ao Google e surpresa apareceu o quadro. Ainda me lembro onde estava, na salinha de estar por cima dos dois sofás onde se sentavam os teus avós. Também me lembro de ver o teu tio sentado no sofá com o autoretrato em cima e de me colocar como critico de arte com uns 6 anos de idade e de achar que não estava especialmente parecido, mas que fazia lembrar.
    No panorama artístico Português o teu Tio teria um lugar de destaque se o seu trabalho fosse mais conhecido.

    Um abraço, saudades
    João

    • isabeltcruz says :

      Olá João,

      hummmm…

      Um primo chamado João não é fácil… todos os meus primos são joões. mas deduzo que, porque dizes “o teu tio”, sejas o João Miguel.

      Concordo que as obras do meu tio seriam uma lufada no panorama e uma marca na forma como a identidade portuguesa processou um movimento tão marcante numa época de viragem na história da Arte. Mas grande parte das obras ficaram nos EUA e só as conheço por fotografias (com pena minha).

      Gostei muito que tivesses aparecido. Este post já me trouxe algumas pessoas para quem o José também foi uma referência, isso é bom!

      Abraço para todos
      i

  2. Craig Roccanova says :

    José was a colleague of my father’s at TRW back in the late 70s and 80s and a great friend to our family. Every Holiday and birthday, José was there. My parent’s wedding gift was a drawing he made for them. When he passed, he left us many of his works and personal belongings. Every Holiday and birthday, José was there. He was a great friend and a fantastic artist. We miss him so much everyday. Thanks for remembering him!

    • Craig Roccanova says :

      José era um colega do meu pai, a TRW volta no final dos anos 70 e 80, e um grande amigo de nossa família. Cada feriado e aniversário, José estava lá. Dom da minha mãe casamento foi um desenho que ele fez por eles. Quando ele passou, ele nos deixou muitas de suas obras e objetos pessoais. Ele era um grande amigo e um artista fantástico. Nós sinto muita falta dele todos os dias. Obrigado por lembrar dele! (Google Translate Revised Version)

    • isabeltcruz says :

      hello Craig, jose was my mother’s brother and we also miss him a lot. We did not had the privilege of having him around every holiday and birthday and i think i can speak in the name of all my family to tell you that we are all thankful for you and your family being around José for all those years. We know how important it was.
      I am really amazed and happy for finding your comment in here.
      Thank you for caring
      Love
      i

  3. João Pedro Lopes says :

    que linda história e que bela arte :)

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