Archive | 30/04/2012

não te sentes um traidor?

Abreviando a história, nos EUA a Arte Pop tinha encanto, fervilhava e por cá a tradição estava enraizada. Da mistura da tradição com a revolução vinda do ocidente saiu muita coisa. Muitas obras e pintores. E saiu José Vaz Vieira, que com uma bolsa da Gulbenkian foi estudar nos EUA. Por lá ficou e não voltou.

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auto-retrato a acrilico sobre tela,anos 70

Morreu lá em 2009.

Algumas obras dele que por cá ficaram e, porque ele nunca voltou nem nunca pintou como actividade principal lá, caíram no esquecimento.

Lembro-me de ser jovem e assistir a uma discussão entre ele, José Vaz Vieira, e um escultor. Bêbados conversavam assim:

-“não te sentes um traidor? Não sentes que traíste todos aqueles que te compraram quadros quando pintavas?”

-“não. não sinto. os quadros continuam a ser deles.”

-“mas eles apostaram em ti. investiram.”

-“e mantêm aquilo que compraram.”

e rapidamente a conversa mudou para uma tela de um jovem pintor que estava encostada a um móvel.

Não sei quantos quadros existem, conheço muitos, conheço as paredes onde estão e tive a sorte de um deles vir parar à minha parede.

Veio cá parar quando depois de uma reestruturação de uma empresa, alguém que o tinha no seu gabinete fez questão que ele fosse da minha mãe, que sempre que via o quadro gabava o bom gosto da escolha, a ficar com ele. Ligou a avisar:

-“Vou pedir para entregarem o quadro a sua casa” e levaram-no. Isto na mesma altura em que eu começava a fingir que era crescida e que tinha casa. Foi assim que o quadro do meu tio veio aqui parar.

Acho que quem investiu ficou contente com o fim deste quadro. Foi uma homenagem em vida.

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Por mim, gosto da mistura da pop arte com o azulejo português. E da história que ele contém.

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