Archive | Abril 2012

não te sentes um traidor?

Abreviando a história, nos EUA a Arte Pop tinha encanto, fervilhava e por cá a tradição estava enraizada. Da mistura da tradição com a revolução vinda do ocidente saiu muita coisa. Muitas obras e pintores. E saiu José Vaz Vieira, que com uma bolsa da Gulbenkian foi estudar nos EUA. Por lá ficou e não voltou.

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auto-retrato a acrilico sobre tela,anos 70

Morreu lá em 2009.

Algumas obras dele que por cá ficaram e, porque ele nunca voltou nem nunca pintou como actividade principal lá, caíram no esquecimento.

Lembro-me de ser jovem e assistir a uma discussão entre ele, José Vaz Vieira, e um escultor. Bêbados conversavam assim:

-“não te sentes um traidor? Não sentes que traíste todos aqueles que te compraram quadros quando pintavas?”

-“não. não sinto. os quadros continuam a ser deles.”

-“mas eles apostaram em ti. investiram.”

-“e mantêm aquilo que compraram.”

e rapidamente a conversa mudou para uma tela de um jovem pintor que estava encostada a um móvel.

Não sei quantos quadros existem, conheço muitos, conheço as paredes onde estão e tive a sorte de um deles vir parar à minha parede.

Veio cá parar quando depois de uma reestruturação de uma empresa, alguém que o tinha no seu gabinete fez questão que ele fosse da minha mãe, que sempre que via o quadro gabava o bom gosto da escolha, a ficar com ele. Ligou a avisar:

-“Vou pedir para entregarem o quadro a sua casa” e levaram-no. Isto na mesma altura em que eu começava a fingir que era crescida e que tinha casa. Foi assim que o quadro do meu tio veio aqui parar.

Acho que quem investiu ficou contente com o fim deste quadro. Foi uma homenagem em vida.

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Por mim, gosto da mistura da pop arte com o azulejo português. E da história que ele contém.

Às vezes podemos morrer

Às vezes podemos morrer. Às vezes morremos e outras discutimos a morte alheia.

Todos os momentos são importantes. Quando pensamos que podemos morrer perguntamo-nos coisas tão simples como: “tenho dançado o suficiente?”; “fiz alguma diferença?”; “todos aqueles de quem gosto sabem que gosto deles?”; “há alguma coisa, em alguma gaveta, que (nem morta) eu quero que alguém saiba?”. Há outras duvidas mais profundas mas no fim as que contam são estas. 

Nas vezes em que morremos deixamos aos outras as perguntas. “Porquê?”; “Terá morrido em paz em todas as áreas da sua vida?”; “Podia ter feito mais? dito mais? ouvido melhor?” Também aqui há outras duvidas mais profundas mas no fim são estas as que contam.

Nas vezes em que discutimos a morte alheia a coisa complica-se muito mais. Já não existe a simplicidade dos dois momentos anteriores. As respostas tomam a vez das perguntas e poucas vezes respondem com a simplicidade que o momento representa.

 E, como ameri…

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E, como americana que é, conta as histórias das canções. Ontem contou uma história sobre a história de uma canção. Uma história “de amor” que guardou durante 7 anos e que no dia em que a decidiu contar em concerto, o protagonista tinha ido assistir. Rematou dizendo: “Life is wild”. Concordo.

As coisas não vão bem por cá.

Faz tempo que todos o achamos. Faz tempo que alguns o dizem.

As por cá vão tão mal que uma declaração assim:

noticia DN: 23 abril

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faz um título assim:

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Haverá necessidade disto ? as vendas justificam tudo ?

-Amo o meu país-

O guardião

Esta é a história de dois amigos e do deserto que atravessaram em busca da Caverna da Verdade. Temperaturas altas de dia, noites geladas. Quilómetros em deserto de pedra. Foram dias e dias de deserto em busca da Caverna sem saber sequer se a sua existência era real. Movia-os a vontade de encontrar aquilo que sempre foi procurado e raras vezes encontrado- a verdade.

Um dia, já exaustos, roupa sem cor e barbas compactas, encontraram uma caverna. Poucas duvidas tiveram de que se tratava da Caverna que procuravam. Poucas duvidas tiveram que iam aceder àquilo que a humanidade sempre desejou.  Entraram a correr.

Foram travados por um velho homem. Indignados, os dois amigos, apelaram aos quilómetros feitos no deserto, ao direito que consideravam ter conquistado de entrar na Caverna e de ter acesso à verdade.

O homem sorriu concordando e dizendo:

-“Sou guardião da Caverna da Verdade há muitos anos e nunca impedi quem cá chegou de entrar. Mas cabe-me perguntar até onde querem ir e avisar que depois da resposta não podem voltar atras. Uma vez dentro da caverna terão de ir até ao fim. Já decidiram a que profundidade querem ir ?”

Os amigos olham um para o outro, afastam-se para decidir. Conversam durante algum tempo. Discutem. Acalmam-se e avançam.

-“Já decidiram?” pergunta o velho homem sorridente.
-“Já sim” responde um deles, “queremos entrar apenas só para podermos dizer que cá estivemos.”

Petra