Muros que falam

De cada vez que parava naquele sinal vermelho, virado para o muro branco do IPL, vinha-me à cabeça a mesma frase:

“musicamos com palavras os diálogos da vida/ vamos indo sem rumo apesar da bússola”

Era uma frase bizarra, longa demais para ser evocada sem nenhuma musicalidade. Vinha sem ritmo e nunca consegui cantá-la. Não era música. Não era minha. E não sabia porque é que cada vez que parava naquele sinal ela me vinha à cabeça. Era um fenómeno.

Uma noite, com uma amiga de longa data no carro e paradas no sinal, comentei o fenómeno. Entusiasmada ela responde que aquela frase esteve durante anos escrita no muro. Que sempre que passava ali ainda via o muro escrito e grafitado mas que nunca se lembraria do que lá estava escrito caso eu não o dissesse.

Aquele muro nunca se calou. Tinha dois discursos. Um para mim, outro para ela.

Aquele mesmo muro, hoje diz mais para a esquerda, greve-geral.

 

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