Há mortos nas redes sociais

A ideia de que existem mortos nas redes sociais é ainda um pouco estranha à maioria. Mas existem. Vários.

Devido à sensibilidade que envolve o tema neste post não serão colocados links ou nomes. Acreditar ou não no que aqui está escrito será decisão de quem ler.

O primeiro caso com que me deparei foi há 3/4 anos: Recebi um telefonema de uma amiga que me dizia que X, amigo comum, tinha morrido. Por estranha, ou não, curiosidade mórbida abri a rede social que me ligava a ele. Fui ver o perfil de X. Nessa página li o seu ultimo status: “Lonely”.

X era divertido e tinha um vasto clube de fãs. Tão vasto que a muitas nunca chegou a noticia da sua morte e, por esse motivo, continuaram a colocar todo o tipo de piadas de ocasião no perfil de X. Pouco tempo depois, por não estar preparada para aceitar com leveza esta realidade estranha retirei X da lista de amigos. Tentei agora voltar a ver o seu perfil e não o encontrei.

O segundo caso foi pouco depois. Y com quem me cruzara há uns anos e com quem me continuara a cruzar de tempos a tempos não tinha o estatuto de amigo. Era alguém que andava pelos mesmos caminhos por onde eu andava e com quem era simpático cruzar-me. Um telefonema também me avisou que Y tinha morrido e tal como fiz com X, abri o seu perfil. Para descobrir que Y já não estava na minha rede. Y tinha visitado o meu perfil nas 2 semanas anteriores à sua morte (a rede de que falo informava quem visitava o nosso perfil e permitir que essa informação fosse dada era opcional). E Y tinha decidido retirar-me da sua rede.

Li na minha rede, escrito por amigos comuns, o sentimento que deixou esta morte. Foi a primeira vez que vi uma homenagem, espécie de velório, online.

O terceiro caso foi pouco depois, mas já na nova rede social da moda para a qual havíamos migrado. É o caso Z. E é do caso Z que trata este post. Com Z não houve telefonema. Foi na rede que soube da noticia, assim como a maioria das pessoas que tínhamos em comum. Foi na rede que foi colocada a informação sobre a igreja do velório, a hora da missa e o cemitério. Foi no perfil de Z que foram colocadas as homenagens. Os pensamentos. As imagens. Até uma discussão sobre o conceito de amizade foi desenvolvida ali. Durante dias sempre que alguém da minha rede escrevia ali, eu lia na minha homepage. Um ano passou e deixei de ler. Z manteve-se na minha rede, na minha memória mas não no meu “mural”. Mas hoje, ao entrar na “nova” rede deparei-me no cantinho do lado direito com uma mensagem que dizia “Catch up on Facebook. Send her a message”.

Cliquei no perfil. Estarrecida li um rol de posts dedicados a Z e assinados “Mãe”.

O perfil “Mãe” tem nome mas não tem foto. Foi criado recentemente por uma mãe sexagenária que quer estar perto de Z.

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3 responses to “Há mortos nas redes sociais”

  1. Paulo Ribeiro says :

    gostei.

  2. Carlos Esperança says :

    Só conhecia os mortos que votavam, mas isso era no Salazarismo e o presidente da mesa eleitoral é que introduzia o boletim.

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