A crise (dis)funcional II

A polémica entre bloguers e jornalistas está em “cima da mesa” ou no monitor do computador. Do excesso de zelo que levou à proibição de acesso ao recinto onde se realizavam as directas do PSD passou-se ao excesso de protagonismo que levou a uma reunião do líder do PSD com bloguers “à porta fechada” no Congresso do mesmo partido.

Não consigo olhar para esta história sem me recordar do Duchamp, e do seu Urinol.

Quando Duchamp apresenta o Urinol a concurso a academia, elite artistica da epoca entra em choque e tenta evitar a todo o custo tal humilhação à instituição Arte. A dinâmica gerada pela ruptura causa um nível de entropia ao sistema que o coloca em risco. Para sobreviver, a instituição arte que sofria a vulnerabilidade da sua crise funcional pós máquina fotografica, teve de aceitar o Urinol e teve de o colocar dentro de um museu. Duchamp subverte a instituição arte.

Mas Duchamp tinha como pretensão trazer a arte para fora dos museus. Trazer a arte para a vida. A sua grande critica à instituição Arte era o afastamento entre esta e a população no geral. O afastamento da vida real. Ele pretendia tirar a arte dos museus e traze-la para a vida quotidiana. Duchamp viu a sua pretensão subvertida pelo sistema. Depois de conseguir ser aceite pela academia, representante da instituição que ele tanto questionava Duchamp viu o seu Urinol entrar no museu. No fim não foi a arte a sair do museu para a vida quotidiana como Duchamp pretendia. No fim foi a vida quotidiana que entrou nos museus sob a forma de arte.

A contra-cultura tornou-se cultura. Foi absorvida pela instituição que ameaçou. Tornou-se um ícone de tudo aquilo que abominou.

Relativizo a escala olhando antes a dinâmica das instituições.As suas estratégias de sobrevivência. Os seus movimentos de cultura e contra-cultura. Desta forma o paralelismo torna-se evidente.

A transposição desta realidade sistémica para a cultura jornalística e a contra-cultura blogue aponta para o fim da blogosfera enquanto contra-cultura. A cultura institucional absorverá a contra-cultura que a ameaça. No fim ambos mudam. Ambos ganham. Ambos perdem.

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One response to “A crise (dis)funcional II”

  1. Joe_zé (@XSequeira) says :

    Faz todo o sentido. E deixou-me a pensar…

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