Archive | Abril 2010

A crise (dis)funcional II

A polémica entre bloguers e jornalistas está em “cima da mesa” ou no monitor do computador. Do excesso de zelo que levou à proibição de acesso ao recinto onde se realizavam as directas do PSD passou-se ao excesso de protagonismo que levou a uma reunião do líder do PSD com bloguers “à porta fechada” no Congresso do mesmo partido.

Não consigo olhar para esta história sem me recordar do Duchamp, e do seu Urinol.

Quando Duchamp apresenta o Urinol a concurso a academia, elite artistica da epoca entra em choque e tenta evitar a todo o custo tal humilhação à instituição Arte. A dinâmica gerada pela ruptura causa um nível de entropia ao sistema que o coloca em risco. Para sobreviver, a instituição arte que sofria a vulnerabilidade da sua crise funcional pós máquina fotografica, teve de aceitar o Urinol e teve de o colocar dentro de um museu. Duchamp subverte a instituição arte.

Mas Duchamp tinha como pretensão trazer a arte para fora dos museus. Trazer a arte para a vida. A sua grande critica à instituição Arte era o afastamento entre esta e a população no geral. O afastamento da vida real. Ele pretendia tirar a arte dos museus e traze-la para a vida quotidiana. Duchamp viu a sua pretensão subvertida pelo sistema. Depois de conseguir ser aceite pela academia, representante da instituição que ele tanto questionava Duchamp viu o seu Urinol entrar no museu. No fim não foi a arte a sair do museu para a vida quotidiana como Duchamp pretendia. No fim foi a vida quotidiana que entrou nos museus sob a forma de arte.

A contra-cultura tornou-se cultura. Foi absorvida pela instituição que ameaçou. Tornou-se um ícone de tudo aquilo que abominou.

Relativizo a escala olhando antes a dinâmica das instituições.As suas estratégias de sobrevivência. Os seus movimentos de cultura e contra-cultura. Desta forma o paralelismo torna-se evidente.

A transposição desta realidade sistémica para a cultura jornalística e a contra-cultura blogue aponta para o fim da blogosfera enquanto contra-cultura. A cultura institucional absorverá a contra-cultura que a ameaça. No fim ambos mudam. Ambos ganham. Ambos perdem.

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Há mortos nas redes sociais

A ideia de que existem mortos nas redes sociais é ainda um pouco estranha à maioria. Mas existem. Vários.

Devido à sensibilidade que envolve o tema neste post não serão colocados links ou nomes. Acreditar ou não no que aqui está escrito será decisão de quem ler.

O primeiro caso com que me deparei foi há 3/4 anos: Recebi um telefonema de uma amiga que me dizia que X, amigo comum, tinha morrido. Por estranha, ou não, curiosidade mórbida abri a rede social que me ligava a ele. Fui ver o perfil de X. Nessa página li o seu ultimo status: “Lonely”.

X era divertido e tinha um vasto clube de fãs. Tão vasto que a muitas nunca chegou a noticia da sua morte e, por esse motivo, continuaram a colocar todo o tipo de piadas de ocasião no perfil de X. Pouco tempo depois, por não estar preparada para aceitar com leveza esta realidade estranha retirei X da lista de amigos. Tentei agora voltar a ver o seu perfil e não o encontrei.

O segundo caso foi pouco depois. Y com quem me cruzara há uns anos e com quem me continuara a cruzar de tempos a tempos não tinha o estatuto de amigo. Era alguém que andava pelos mesmos caminhos por onde eu andava e com quem era simpático cruzar-me. Um telefonema também me avisou que Y tinha morrido e tal como fiz com X, abri o seu perfil. Para descobrir que Y já não estava na minha rede. Y tinha visitado o meu perfil nas 2 semanas anteriores à sua morte (a rede de que falo informava quem visitava o nosso perfil e permitir que essa informação fosse dada era opcional). E Y tinha decidido retirar-me da sua rede.

Li na minha rede, escrito por amigos comuns, o sentimento que deixou esta morte. Foi a primeira vez que vi uma homenagem, espécie de velório, online.

O terceiro caso foi pouco depois, mas já na nova rede social da moda para a qual havíamos migrado. É o caso Z. E é do caso Z que trata este post. Com Z não houve telefonema. Foi na rede que soube da noticia, assim como a maioria das pessoas que tínhamos em comum. Foi na rede que foi colocada a informação sobre a igreja do velório, a hora da missa e o cemitério. Foi no perfil de Z que foram colocadas as homenagens. Os pensamentos. As imagens. Até uma discussão sobre o conceito de amizade foi desenvolvida ali. Durante dias sempre que alguém da minha rede escrevia ali, eu lia na minha homepage. Um ano passou e deixei de ler. Z manteve-se na minha rede, na minha memória mas não no meu “mural”. Mas hoje, ao entrar na “nova” rede deparei-me no cantinho do lado direito com uma mensagem que dizia “Catch up on Facebook. Send her a message”.

Cliquei no perfil. Estarrecida li um rol de posts dedicados a Z e assinados “Mãe”.

O perfil “Mãe” tem nome mas não tem foto. Foi criado recentemente por uma mãe sexagenária que quer estar perto de Z.