“Custou mas foi”
Este post é devido desde há uns dias. Tudo começou mais uma vez no twitter onde eu acompanhava uma conversa sobre as novas plataformas de distribuição de conteúdos (neste caso noticias) e o futuro das plataformas convencionais (neste caso o papel).
Penso que discordei 3 vezes. Numa primeira discordei que existisse uma revolução nos media mas acabei por convergir – todas as revoluções foram o culminar de processos lentos e silenciosos. Assunto arrumado.

Numa segunda discordei que se venha a assistir a uma redução do investimento em publicidade. Existirão quebras porque o investimento é função do PIB mas o valor percentual manter-se-á).
Defendi que as marcas continuarão a estar dispostas a investir o que sempre investiram em publicidade mas só investirão em quem acertar no alvo.
Foi aqui que recebi uma resposta que me fez estar tantos dias a ponderar.
A resposta que está aqui encerra nela uma série de questões que a meu ver devem ser problematizadas, pensadas e desconstruídas.

O primeiro problema prende-se com o facto de o autor do post ser reconhecido como “uma autoridade” no que toca a novas tecnologias e novas lógicas de mercado.
O segundo problema prende-se com o facto do autor estar a citar o CEO do Google. Um gigante do sector que se debate actualmente com problemas judiciais à escala planetária relativos a questões de propriedade intelectual e agregação de noticias no GoogleNews.
As minha perguntas são : O Google (esse concentrado gigante) anuncia? E isso significa que não investe em publicidade?
Não me parece. Parece-me que esse gigante utiliza a doutrina como forma de publicidade e as conferências enquanto plataforma de distribuição. Os custos devem mesmo ser altíssimos. Viagens constantes do CEO, assessores e restante comitiva.
Mas aquilo que ele diz justifica cada cêntimo que recebe a cada mês porque ninguém duvida ou questiona. Porque ele diz aquilo que tem de dizer para defeder o negócio que lhe pagam para defender.
Que poderia o CEO da Google dizer quando está a negociar com o mundo o Google News? Que poderia ele dizer quando a viabilidade do Google News dependerá possivelmente do pagamento de fees? Poderia dizer por esse mundo fora que se espera o melhor para o mercado publicitário no segmento Internet? Qual o valor de um fee em substituição de um mau negocio de publicidade? E qual o valor do mesmo em troca de um negocio de crescimento estavel e a bom ritmo?
Fica guardado para um próximo post a continuação deste mesmo tema.
Copos onde não há leite
“A rede de telemóveis já estava montada quando se vendeu o primeiro…”
Poderá ser verdade mas o busílis da questão não é esse.
Quem tem televisões preparadas para a TDT é um consumidor com um determinado perfil que inclui forçosamente o rendimento disponível que lhe permitiu a aquisição dessa televisão e alguma simpatia pelo meio em si que, se justificou essa compra, justificará também a contratação de serviços pagos a qualquer operador de rede ou plataforma(Cabo, IPTV ou DTH).
Logo, todos esses estão excluídos do universo de hipotéticos compradores de STB para ver os 4 canais FTA – já os têm através de qualquer assinatura.
Restam então dois tipos de consumidores de TV:
- Os que não têm dinheiro para assinar serviços pagos de Tv.
- Os que têm muito dinheiro. Tanto que assinam vários serviços de TV por motivos que podem ir das questões tecnológicas ao querer ver o canal Benfica no Meo e o TVI24 na Cabo.
Estes últimos irão quase de certeza comprar uma STB por 150€ (tecto máximo para as STB com pause, PVR – personal vídeo record, etc.).
Mas os primeiros, aqueles que não têm dinheiro e por isso só vêm os 4 canais FTA, são 80% da população (segundo o anuário da ANACOM).
Os telemóveis entraram assumidamente no mercado com uma estratégia de desnatação – Caso Nokia. enquanto a TDT neste ponto faz a desnatação de copos onde muitas vezes nem há leite quanto mais nata.
E este é o busílis da questão.
Não se trata de acusações de pecado ou de fiasco… trata-se simplesmente de constatações e dúvidas.
Quanto às STB só poderão ser subsidiadas pelo Estado caso exista subsidiação de TODAS as STB do mercado porque o Estado não pode subsidiar equipamento de acesso a uma rede privada em detrimento de outras rede privadas. Com ou sem Golden Share.
Existem 40M€ da PT destinadas a subsidiação de STB.
Coloco inclusivamente a hipótese de o lugar em aberto a fabricantes de STB na parceria com a TDT se dever a negociações falhadas devido aos preços de lançamento.
Quanto ao seu fabrico, desconheço se serão o João Gonçalves Zarco ou Tristão Vaz Teixeira mas agrada-me muitíssimo a hipótese de serem fabricadas em Portugal.
Garantia criação de postos de trabalho e desenvolvia o nosso sector tecnológico – se assim fosse daria mais facilmente 99€ pela STB. Estaria a contribuir para o desenvolvimento do pais em vez de estar a contribuir, com margens gigantes, para o enriquecimento fácil dos que se limitam a importar STB da China ao preço da chuva e a fazer o negócio da China cá.
TDT de todos os portugueses ?
Começam hoje as transmissões digitais de televisão via hertziana. A PT afirma que chega hoje a 30% da população.
A minha dúvida é saber quanta população chega à TDT.
Porque esta afirmação é o mesmo que dizer que as redes móveis cobrem o globo. Isso é bom, mas quantos países do mundo ainda não têm 100% de taxa de penetração de telemóveis?
De que serve emitir para 30% da população se a população não tiver 99€ para comprar a STB (pag. 9) ou umas centenas para comprar uma televisão DVB-T Mpeg4 parte 10 H264 ?
Convém esclarecer que estas transmissões são FTA ( Free To Air – gratuitas; abertas; livres). Dedicadas aos 80% da população que não paga, porque possivelmente não pode, para ver TV.
Compreendo que o futuro é para a frente e que o Dividendo Digital é um bem apetecível para todos pelo potencial económico e tecnológico que representa mas a PT deve ter em conta a realidade do país onde opera.
E agora deixo a pergunta inicial: Quantos portugueses (excluindo engenheiros e altos cargos da PT) viram TDT hoje?

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